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Marcelo Henrique Câmara nasceu na cidade de Florianópolis em 28/06/1979, local em que morou ao longo de toda a vida.

Tendo sido batizado em 11/08/1979, aprendeu as primeiras orações com sua bisavó materna, com quem muito pouco pôde conviver em razão da idade avançada. Devota de Nossa Senhora Aparecida, a senhora guardava em seu quarto muitas imagens de santos que fascinavam o pequeno Marcelo.

Filho mais velho de Julio Carlos Richard Câmara e Leatrice Pavan, recebeu dos pais excelente educação. O pai, sendo filho de militar, transmitiu-
lhe regras de bom comportamento e ordem. A mãe, professora, teve influência direta no processo de educação do filho.

Desde muito cedo (por volta de 06 anos de idade), interessava-se por assuntos voltados ao bem comum (governo da cidade, bem estar do próximo), manifestando pensamentos ideais e praticando pequenas ações virtuosas.

Marcelo viveu em companhia dos pais até os 10 anos, quando, contra a sua vontade, enfrentou a separação do casal. O fim do casamento dos pais no ano de 1989 provocou uma grande mudança na sua personalidade, tendo-lhe forçado o amadurecimento pela dor. O menino de apenas 10 anos ao ir morar com a mãe e o irmão mais novo, Murilo Eduardo, passou a ter atitudes de um verdadeiro adulto na condução da família (preocupando-se com o trabalho da mãe, com os gastos da casa, etc.) sentindo-se responsável pelo futuro dos familiares, preocupação que o acompanhou por toda a vida.

Recebeu a Primeira Eucaristia em julho de 1991.

Apesar da separação do casal, o pai manteve contato frequente com os filhos, acompanhando o crescimento e estimulando a formação. Com o auxílio da madrinha de batismo de Marcelo, procurava manter nos filhos, pelo menos, o compromisso da Santa Missa nos finais de semana.

Dotado de inteligência ímpar e rara eloquência, características marcantes em sua pessoa, a dedicação aos estudos rendeu-lhe uma notável formação. Considerado aluno exemplar no primeiro e segundo graus (tendo, inclusive, assumido o compromisso de ser orador da turma na formatura do 1º grau em 1993, no colégio Alferes Tiradentes, obrigação que somente não conseguiu cumprir em virtude de ter fraturado a perna jogando futebol no dia da formatura), passou na primeira tentativa no concorrido vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ingressando no Curso de Direito em março de 1997 com distinta colocação, concluindo-o em dezembro de 2001 e obtendo o grau de Bacharel em fevereiro de 2002 (quando, novamente, foi indicado para ser o orador da turma, desta vez, tendo cumprido o seu encargo). Durante a graduação, nos anos de 2000 e 2001, estagiou na Procuradoria da República no Estado de Santa Catarina, ingressando, também, mediante concurso. No final do ano de 2002 participou do processo seletivo para o Curso de Mestrado em Direito da UFSC, obtendo, mais uma vez, excelente colocação, iniciando os estudos em março de 2003 e defendendo a dissertação em exíguo prazo, já em julho de 2004.

Sem embargo, a paixão pelo saber e a busca de uma intensa formação intelectual foram revolucionadas pelo profundo processo de conversão interior que se iniciou no segundo semestre da faculdade, quando aceitou o convite feito pelo saudoso Monsenhor Francisco de Sales Bianchini, então diretor espiritual do Movimento de Emaús em Florianópolis, para fazer a experiência de Deus através do Curso de Valores Humanos e Cristãos do Assim, o 50º Curso Masculino de Emaús, realizado no período de 28 a 31/08/1997 (no qual recebeu o sacramento do Crisma tendo por padrinho o Monsenhor Bianchini), proporcionou-lhe um encontro pessoal, único, com o Cristo Senhor, dando um sentido novo a sua existência e, consequentemente, à sua busca intelectual que passou a consubstanciar-se, sobretudo, no acesso à verdade dAquele com quem se encontrou.

No Movimento de Emaús, foi extremamente assíduo nas reuniões do grupo de jovens no qual participava, o grupo São Paulo, tendo sido, inclusive, seu presidente e por longa data, até quando precisou afastar-se por problemas de saúde. Era, também, palestrante assíduo nos cursos, nas reuniões de grupo e Escola Missionária do Movimento, bem como colaborador frequente nos programas do Movimento junto à Rádio Santa Catarina (rádio que antecedeu a Cultura enquanto emissora católica em Florianópolis).

No ano 2000 foi convidado pelo Padre Márcio Alexandre Vignoli para exercer o Ministério Extraordinário da Sagrada Comunhão na Paróquia Sagrado Coração de Jesus nos Ingleses, onde residia (auxiliou os trabalhos de catequese com adultos e a organização de eventos litúrgicos como orações ao Santíssimo, Cerco de Jericó, celebrações de Natal e da Paixão de Cristo), atuando como coordenador dos ministros até o seu afastamento em virtude da doença que o acometeu.

Marcelinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, costumava saudar a todos desejando “Paz e Bem”. Estudioso profundo e autodidata da doutrina católica mantinha uma postura firme face às propostas ou ensinamentos contrários jamais transigindo com o erro em questões de fé e moral, esclarecendo as fontes bíblicas e magisteriais que revelavam o ensinamento correto, ao mesmo tempo em que o fazia com mansidão e humildade de coração.

Seu amor à Igreja foi intensificando-se. Esse amor levou-o a defender com heroísmo a Santa Igreja perante os colegas universitários e professores, todas as vezes em que era injustamente atacada.

Não obstante ser um jovem atraente pela boa aparência e riqueza interior, nutria um profundo respeito pela figura feminina na qual enxergava a beleza do Pai Criador, demonstrando, assim, um coração casto, puro de sentimentos e de atitudes. Após um brevíssimo namoro com uma jovem, percebendo a incompatibilidade do casal, encerrou o relacionamento amoroso entregando à moça um buquê de flores, em sinal de respeito e fraterna

Ainda que tenha cogitado a vocação sacerdotal, durante a faculdade decidiu seguir a carreira de Promotor de Justiça, em conjunto com sua grande paixão, a docência.

No ano 2000 foi convidado por um amigo do Movimento de Emaús para participar de uma palestra ministrada por um integrante do Opus Dei vindo de Curitiba, sendo este o seu primeiro contato com a Obra (denominação da instituição na língua portuguesa – Obra de Deus). Começou a participar dos encontros esporádicos de formação oferecidos (não havia ainda ação organizada da Prelazia em Florianópolis, somente no ano de 2001 iniciou-se um ciclo periódico de palestras voltado para a formação de profissionais, em São José), e, a partir do final do ano de 2002, mais intensamente, de janeiro de 2003, com a confirmação da atividade apostólica do Opus Dei na cidade junto aos jovens universitários e profissionais, Marcelo passou a buscar a formação espiritual e doutrinária na Obra, sendo que as palestras que eram ministradas mensalmente em São José, passaram a se realizar em Florianópolis no salão do edifício da sua avó paterna, dona Mary.

Assim, ao mesmo tempo em que continuava com o firme apostolado junto ao Movimento de Emaús e à Paróquia dos Ingleses, foi mergulhando na vida de São Josemaria Escrivá (Fundador do Opus Dei), através das palestras em que frequentava, dos convívios, dos retiros, da direção espiritual e da leitura da biografia do santo fundador. Deste modo, Marcelo e alguns jovens, com muito empenho e disponibilidade iniciaram regulares visitas quinzenais a um dos centros do Opus Dei, em Curitiba, pelas manhãs de sábado, a fim de terem direção espiritual, que então era dada pelo Padre Manuel Correa Orellana. Mais tarde, essas viagens que duravam em média de 7 a 8 horas somadas ida e volta, foram preenchidas com normas de piedade – rosário, oração, leitura -, tertúlias e palestras – razão por que foram apelidadas de “convívios itinerantes”.

Os convívios itinerantes perduraram até que um dos sacerdotes da Obra, Padre Flávio Sampaio de Paiva, passou a vir quinzenalmente, e depois semanalmente, a Florianópolis, em virtude do crescimento dos frutos apostólicos, para os quais Marcelo contribuía com especial eficácia.

O ideal de santificação das atividades temporais cotidianas, sobretudo do trabalho profissional – preconizado por São Josemaria Escrivá – foi vivido intensamente por Marcelo na medida em que soube transformar as realidades humanas da família, da profissão, do estudo, do lazer, da amizade e do descanso, em locais privilegiados de encontro com Deus.

No desejo de conduzir e oferecer o trabalho profissional para Deus, Marcelo avançou na formação intelectual buscando sempre aperfeiçoar o conhecimento adquirido, não para sua vanglória, mas para poder melhor servir.

Nos anos de 2003/2004, atuou como professor substituto da UFSC nos cursos de Direito e Economia. Em 2004, ainda, foi contratado pelo curso de Direito do Instituto de Ensino Superior da Grande Florianópolis (IES) e Faculdade de Santa Catarina (FASC).

Marcelo marcou profundamente as pessoas que com ele conviveram, não somente pelo seu conhecimento incomum, mas por não se importar em “gastar” tempo com os familiares, colegas de trabalho, alunos e amigos. Assim, além da sua completa dedicação ao trabalho profissional e religioso, são características marcantes do seu ser, a palavra acolhedora, o sorriso encantador, o companheirismo, a disposição em ajudar, a riqueza de sentimentos em seu coração, sem contar a fé viva e inabalável, o intenso amor a Deus.

Enfrentou uma dura provação a partir de setembro de 2004, quando, subitamente, perdeu os movimentos das pernas necessitando ser internado, com urgência. Nesta ocasião, recebeu o diagnóstico de linfoma linfoblástico (Linfoma não-Hodgkin), um tipo de câncer que se origina no sistema linfático, disseminando tumores que se desenvolvem, principalmente, no tórax (região denominada mediastino).

Com o auxílio incansável da família e dos amigos, com a confiança filial na Providência Divina, enfrentou com surpreendente e contagiante serenidade o longo processo de luta pela vida, que durou cerca de 4 anos, realizando muitos exames e coletas de sangue, quimioterapia e radioterapia, experimentando medicamentos e tratamentos, submetendo-se a prolongadas internações e até a um auto transplante de medula óssea, em novembro de 2007, quando a doença já havia atingido a corrente sanguínea, sendo diagnosticada a leucemia.

Entre agravamentos da doença e melhoras no quadro, no hospital ou em casa, era atendido semanalmente por um sacerdote e um numerário da Obra.

No período que antecedeu a doença já havia adquirido o hábito de participar da Santa Missa diariamente. No primeiro domingo após sua 1ª internação, Monsenhor Bianchini presidiu a celebração da missa em seu quarto de hospital, pedindo o enfermo a palavra para expressamente associar o sacrifício vindouro pelo qual passaria ao sacrifício único de Cristo atualizado a cada Eucaristia celebrada.

Aqueles que o visitavam no hospital saíam confortados e impressionados com sua paz e seu otimismo. Já nos primeiros dias que se seguiram à primeira internação no Hospital Celso Ramos, foi solicitado que cessassem as visitas, tamanho o fluxo de gente que o vinha visitar.

Aos médicos pedia relatos detalhados de sua condição de saúde, bem como pedia pressa nos procedimentos de tratamento, pois dizia ter muita vida pela frente. Ao mesmo tempo em que dizia, especialmente à mãe, para não se preocupar caso deixasse essa vida, pois “do outro lado seria melhor do que aqui”. Sua aceitação e entrega aos desígnios de Deus era completa, ouvindo-se, também, de seus lábios, a expressão “se fico nesta vida, é pela misericórdia de Deus, se vou para a vida eterna, também é pela misericórdia de Deus”.

Marcelo não se deixou abalar pelo sofrimento e pela dor física e emocional de ver os entes queridos padecerem, transformando-os, como tudo em sua vida, em local de encontro profundo com o Senhor.

Mesmo doente, continuou a trabalhar e a estudar. Sua dedicação à docência e o seu esforço em permanecer em atividade durante o tratamento, rendeu-lhe a homenagem (póstuma) dos alunos da turma 2009.2 do curso de Direito do IES, que o elegeram “nome de turma”, por ocasião da cerimônia de formatura.

Memorável, também, foi seu esforço em participar do 65º Emaús Masculino em 2005, quando em intervalo de internação hospitalar fez grande sacrifício para, em cadeira de rodas, poder palestrar sobre a Eucaristia e demonstrar seu amor sobre o mistério eucarístico.

Em crescente processo de amadurecimento da fé, em 1º de abril de 2006, durante um convívio na Chácara dos Pinhais, São José dos Pinhais/PR, pediu sua admissão no Opus Dei como supernumerário, afirmando ter encontrado a confirmação de sua vocação laical manifesta na convicção de que, o trabalho santificado e santificante, é parte essencial da vocação do cristão.

A certeza de poder servir a Deus através do trabalho profissional impeliu-o, mesmo debilitado pela doença, a estudar com afinco para enfrentar o concorrido concurso para o Ministério Público Estadual, o qual passou em 5º lugar, sendo nomeado em 20/03/2007. Assumiu o cargo, não sem antes enfrentar mais uma contradição: o prévio exame de saúde atestara sua capacidade para exercer a profissão. Todavia, o médico, não querendo assumir sozinho a responsabilidade, e, apesar de ter concluído pela perfeita possibilidade de Marcelo trabalhar, alertou a Comissão de Exame sobre o tratamento contra a doença, o que já era de conhecimento da Comissão. Após a designação de junta médica, ratificou-se o exame anterior, e enfim, concluiu-se a nomeação.

Contudo, em virtude da piora do estado de saúde, Dr. Marcelo somente pôde atuar como Promotor de Justiça por cerca de 90 dias, tempo suficiente para demonstrar sua acurada consciência profissional (muitas vezes trabalhando além do expediente para dar conta do volume excessivo de trabalho), o otimismo que o mantinha sereno e confiante ante os desafios e o cotidiano penoso da Vara Criminal de São José (considerada uma das mais volumosas do Estado), e, sobretudo, seu profundo amor ao ser humano, a quem enxergava a imagem do Senhor.

Este respeito incondicional à humanidade presente em cada pessoa restou evidente na ocasião em que, após obter uma justa condenação para o autor de um delito, fez algo inusitado: foi em busca do apenado a fim de dar-lhe conselhos, para que dedicasse o tempo que passaria no cárcere a refletir sobre sua vida e, principalmente, buscasse a Deus. Assim, foi além do que lhe era exigível, ou seja, mais que justo (trabalhou competentemente), foi caridoso (preocupou-se com a alma do próximo, sem olhar tanto para seus erros, mas também sem compactuar com eles ou diminuir-lhe a responsabilidade por seus atos e a correspondente necessidade de reparação, conforme a justiça dos homens). Tal detalhe de caridade somente veio a público durante a homilia da Missa de Sétimo dia, quando o celebrante contou o fato, que Marcelo, humildemente, deixou escondido (tinha confidenciado à avó paterna).

Marcelo buscava a perfeição nos seus afazeres, por amor, porque sabia que isto era agradável a Deus. Conseguiu, em meio a suas atividades profissionais, à vida social e à dor, manter a alma contemplativa, a presença de Deus, através do cumprimento heroico de um plano de vida que comportava, dentre outros compromissos, a diária recepção da Eucaristia, a oração do terço e a meditação, bem como a busca periódica da direção espiritual e da confissão.

Neste espírito, sobreveio a última internação no final de fevereiro de 2008, à qual não pôde mais resistir. E assim, no dia 20/03/2008, em uma quinta-feira santa, exatamente um ano após sua nomeação como Promotor de Justiça, veio a falecer, sendo enterrado na sexta-feira santa, 21/03/2008.

Na Missa de sétimo dia, Monsenhor Bianchini, emocionado, aconselhou os presentes a não rezar pelo Marcelo, mas sim, a pedir sua intercessão junto a Deus, porque era verdadeiramente um santo.

Há notícias de pessoas que alcançaram graças mediante sua intercessão, sendo colocadas placas de agradecimento em seu túmulo. Está sepultado no cemitério São Francisco de Assis (Itacorubi), Alameda E, sepultura 28.

Marcelo Henrique Câmara, presente de Deus para as pessoas que com ele conviveram e para toda a Igreja, foi, pela completa correspondência à Graça, um verdadeiro santo, alegria de Deus na terra. Na confiança de que se encontra junto de Deus, sem com isso querer antecipar o juízo da Igreja, que se recorra privadamente à sua intercessão.