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“A primeira vez que falei com o Marcelo foi no decorrer do concurso do Ministério Público em 2006, no qual ele foi aprovado em quinto lugar. Eu não passei da terceira fase. Lembro-me como se fosse hoje da forma humilde com que ele divergiu do meu posicionamento ao sairmos da prova na qual não obtive êxito. Ele estava ao lado de um amigo comum, com a sua bengala, quando perguntei a ele o que tinha realizado no exame. Não o conhecia pessoalmente, mas tinha ouvido a história de como ele foi realizar a primeira fase muito combalido pela quimioterapia, tendo de ser carregado para chegar à sala onde foi executada a prova. Alguns meses depois, talvez mais de um ano, fui convidado a participar de uma atividade do Opus Dei na igreja da Prainha, chama-se recolhimento mensal, onde um Sacerdote faz uma pregação sobre um tema da doutrina Católica, a fim de os presentes poderem fazer oração. Quando entrei no templo, pela lateral, deparei-me com o Marcelo na primeira fila, para variar sorrindo, com aquela alegria singular. No final, conversamos um pouco e marcamos um almoço. Dai em diante, por aproximadamente seis meses, almocei com o Marcelo praticamente todas as semanas. A sua grande espiritualidade era evidente. Estava sempre alegre, falava com uma mansidão impressionante, mesmo quando conversávamos sobre o câncer contra o qual ele estava lutando. Neste tempo os sintomas tinham sumido, autorizando ele tomar posse como Promotor de Justiça. Nunca ouvi ele falar mal de ninguém. Possuía uma perspectiva otimista de tudo, transmitindo uma paz comovente. Cultíssimo, inteligente, falava um português irrepreensível, o qual eu apreciava muito ouvir. Ligar para ele era um verdadeiro deleite, atendia com um entusiasmo que fazia os amigos se sentirem verdadeiras celebridades: “Nossa que alegria falar com você! Tudo bem! Sensacional você me ligar! Ganhei o dia em receber a tua ligação”, esse era o padrão… A gentileza dele praticamente irradiava pelos buraquinhos do telefone. Uma tarde eu caminhava com o Marcelo pela Bocaiuva, perto da casa da sua avó, e dois rapazes mais jovens, seus amigos, aproximaram-se para conversar e não queriam mais deixar-nos, ficavam olhando para o Marcelo com uma admiração surpreendente enquanto ele falava. Ele ficou constrangido com a situação e, de um modo muito polido, fez com que entendessem que precisávamos conversar de modo mais reservado e os dois jovens partiram felizes. Foi uma situação muito engraçada. Em outras ocasiões voltei a observar como as pessoas gostavam de ficar perto dele. Contaram-me que no fórum da Capital as copeiras teriam apelidado ele de: “O iluminado”, tamanha era delicadeza com que tratava esses profissionais mais humildes. Nos nossos almoços, comia muito pouco, geralmente um punhado de arroz, um dedal de feijão, duas rodelas de tomate e um ínfimo pedaço de carne, lembro claramente; mesmo no período que ele estava bem de saúde, confiante no sucesso do tratamento, seus pratos eram sempre assim, modestos, pareciam feitos para crianças, os quais contrastavam em muito com as minhas refeições substanciosas… Sempre procurava saber como eu estava caminhando na fé, dando-me dicas e conselhos oportunos para avançar. Havia pouco tempo que eu tinha me decidido levar o cristianismo mais a sério e a ajuda dele foi determinante no meu processo de conversão e discernimento vocacional. Certa vez, encontrei com ele na porta da capela do Colégio Catarinense. Recordo de não estar bem espiritualmente naquele dia, parece que ele adivinhou, pois colocou a mão no meu ombro, olhou-me seriamente dizendo: “Vida interior! Vida interior! Depois dirigiu-se sem dizer mais nada até o banco para rezar. Este fato e o olhar dele me marcaram muito. Gosto de dizer que o primeiro livro espiritual católico que eu li, ganhei dele: “O Sermão da Montanha” (George Chevrot). Guardo a obra com muito carinho, sobretudo por conta da dedicatória. Na fase aguda da doença, antes de ser hospitalizado definitivamente, encontrei ele algumas vezes nas missas. Ainda que debilitado pelo tratamento – perdera os cabelos, seu rosto estava bastante inchado, caminhava lentamente – a alegria, a forma serena e educada de falar, continuavam presentes no seu modo especial de ser. Na fase terminal, acalmava os seus familiares e amigos dizendo: “Não se preocupem, para aonde eu vou é bem melhor, estarei com Cristo, com Nossa Senhora e os santos”. Soube mais tarde que ele teria dito inclusive que morreria na quinta-feira santa para ser sepultado na sexta, igual a Jesus…“Ele não era desse mundo” disse-me um amigo uma vez. Concordo plenamente, o próprio grande Mestre nos alertou sobre isso – “…não sois propriedade do mundo; mas Eu vos escolhi e vos libertei do mundo” (João 15:19); o Marcelo, nos últimos anos de vida, evidenciou a sua verdadeira cidadania: de peregrino em direção à pátria eterna, igual a todos nós, embora no mais das vezes, por causa de ninharias que cedo ou tarde se tornarão pó, acabamos por esquecer dessa condição. Rogai por nós, amigo!”

André Ghiggi

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