Home » Textos » Fica conosco, Marcelo, pois já é tarde e o sol declina…

Texto elaborado por Klaus da Silva Raupp para a Missa de Sétimo dia de Marcelo Câmara.

“Foi como este o instante convite que os dois discípulos, chegando a Emaús, na tarde do próprio dia da ressurreição, dirigiram ao Viajante que se lhes tinha juntado no caminho. Carregados de tristes pensamentos, não imaginavam que aquele misterioso peregrino fosse precisamente o seu Mestre, já ressuscitado. Mas sentiam seus corações em brasa, quando Ele lhes falava, “explicando” as Escrituras” (palavras de João Paulo II, numa de suas últimas cartas).

 Estamos tristes, bom e santo amigo… Humanamente falando, é muito difícil perder o convívio do filho, irmão, neto, sobrinho, primo, afilhado, padrinho, amigo, enfim, tão querido por todos. Foste, entre nós, uma unanimidade, em todos os sentidos dos melhores valores da vida, e, diga-se de passagem, uma unanimidade mais que inteligente. Pedimos, inclusive, desculpas pelas lágrimas que caem no chão que ajudaste a santificar, mas bem sabes que até mesmo Jesus chorou a morte do amigo Lázaro, e as pessoas que estavam à sua volta diziam, exclamadas: “vejam como ele o amava”… E nós te amamos muito, Marcelo, até porque tu muito nos amaste. É a saudade… Palavra considerada das mais bonitas da tua amada língua portuguesa, mas também uma das mais difíceis… Doce presença na ausência, como ensina o Monsenhor.

 Mas Deus tem, sim, os seus mistérios (que, aliás, como tu mesmo sempre nos dizias, devem ser contemplados, e não decifrados)… Seria injusto com o Pai dizer que Ele te levou; um filho tão dileto que só fez o bem e tanto revelou o amor do próprio Deus entre os seus. Mas o Criador aceita os caminhos da natureza, que, muitas vezes, adoece (mesmo que não compreendamos, ou quiçá não aceitemos)… E, mais que isso, revelou o Seu milagre na tua própria vida, no teu próprio testemunho, no teu próprio sacrifício santamente associado ao dele. “Combateste o bom combate, completaste a corrida, guardaste a fé”, e agora Deus te oferece a coroa da justiça, que Ele reserva àqueles que o amam, mesmo que não percebam nossos olhos, ouvidos e corações.

 Contudo, alguns sinais não nos têm passados despercebidos… Deixaste-nos numa quinta-feira santa, dia inicial do tríduo pascal, momento mais importante da nossa fé, bem como dia da instituição da Eucaristia que tanto amaste, comungaste e viveste… A tua vida é uma Eucaristia, verdadeira ação de graças a Deus… Lembro-me tão bem das tuas comoventes palavras no dia em que rezamos, com o Monsenhor, a primeira Missa no teu leito de hospital, lá no início do teu calvário, em 2004: “meus queridos, quero lhes dizer que esta mesinha – a das refeições – não tem a noção de que receberá em seguida a maior dignidade que lhe é possível – a de um altar –, e dizer também que desejo associar o meu sacrifício ao de Cristo, que se renovará neste altar…”. Tu creste, bom e santo amigo…

 Foste sepultado numa sexta-feira santa, dia da morte do Senhor, o que nos faz lembrar outra exortação de São Paulo: “Pelo batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, como Ele foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova”. Acompanhamos teu longo calvário, tua luta incessante pela vida, e tua crença na solidariedade das pessoas. Nunca reclamaste, nunca perdeste o sorriso, e tu mesmo nos consolavas. Portanto, não temos, em respeito a ti e ao teu evidente testemunho vivo de fé, o direito de duvidar da tua certa ressurreição em Cristo, e da tua plena alegria no céu. Dizias, inclusive, aos teus pais: “Mãezinha, Paizão, podem ficar tranqüilos que do outro lado é muito melhor”… Nós cremos…

 Sentimos, então, que é por causa da tua santidade que nossos corações estão tão abrasados nos últimos dias, assim como o dos discípulos de Emaús (e não é que hoje a própria liturgia do dia te reservou a passagem do caminho de Emaús?!?!). Enfim, só se vê bem com o coração, disse a raposa ao pequeno príncipe… E parece ser isso o que o coração ora nos mostra… Entre a lágrima e a saudade, uma estranha alegria, uma estranha paz. De fato, uma santa e doce presença na ausência, mistério do amor de Deus. Amor que cultivaste com tuas inumeráveis virtudes, bom e santo amigo, virtudes que nos explicavas tanto com palavras singelas, mas sábias, como com tua vida repleta da graça de Cristo, o ser humano em plenitude, o próprio Deus entre nós, a quem fielmente seguiste, com santa perseverança, a ponto de deixares que vivesse em ti.

 Por fim, depois te termos recebido o pão partido, onde Cristo se dá a nós, que aqui permanecemos no caminho, permitindo-nos também a comunhão com os santos (e também contigo, portanto), possamos voltar às nossas “Jerusaléns” para, com fé e alegria, anunciar a todos o teu precioso exemplo, e as maravilhas que Deus em ti operou. Por isso, empresto minha voz às tuas próprias palavras: Há um lugar especial no qual Cristo quer ser acolhido: no coração de cada homem – independente de qualidades, condição social, raça, língua. Jesus quer estabelecer morada. Demonstra-o o livro do Apocalipse: ‘Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo’ (…) [E] alguns bem-aventurados abrem-se de tal forma a Cristo que são capazes de afirmar, em um testemunho cristão sem igual, que sua relação com Ele já tomou conta de todo o seu viver: ‘Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo quem vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim’…”

 Fica conosco, Marcelo, bom e santo amigo, modelo que és, em Cristo, para nossas vidas, e intercessor que passaste a ser, junto de Deus, por cada um de nós. E roga por nós!

 Continuemos, nesse breve instante, com o coração em silêncio, aproveitando a brasa da santa e doce presença do Marcelo a nos inspirar na direção da plenitude da nossa vocação humana, que é o Cristo.

 In cor de Iesu,
teu amigo e afilhado
Klaus.