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Homilia da Missa de Sétimo dia de Marcelo Câmara, celebrada pelo padre Flávio Sampaio.

“Prezado Mons. Bianchini; queridos parentes do Marcelo Câmara, em especial Da. Leatrice e Seu Júlio, Murilo, Da. Mary; queridos irmãos e irmãs em Cristo.

Celebramos essa Missa pela alma do Marcelo. Não celebramos a Missa de Defuntos, pois estamos dentro da semana da Páscoa, e a Igreja comemora por oito dias seguidos a sua maior festa: a Ressurreição de Cristo.

Mas penso que essa é uma feliz coincidência, ou melhor, penso que se trata de um desígnio da providência divina. O Marcelo se identificou tanto com a vida de Cristo, que mereceu acompanhá-lo na sua dolorosa paixão com seus sofrimentos, na sua morte redentora, sendo até mesmo sepultado no mesmo dia que Jesus Cristo, e agora também o acompanha na sua Ressurreição. O Marcelo goza da vida eterna com Cristo Ressuscitado. E nessa Missa celebramos a ressurreição de Cristo e a vida eterna do Marcelo.

Acabamos de ler o evangelho dos discípulos de Emaús – que nos recorda o movimento de Emaús, tão querido pelo Marcelo – que nos mostra a revira-volta que se deu na vida dos discípulos de Jesus Cristo, com a sua ressurreição.

Se Jesus ressuscitou, venceu a dor, venceu o mal, venceu o pecado e a morte… E Ele é Deus. Se Jesus ressuscitou, nós seus seguidores, temos a fé que um dia ressuscitaremos com Ele.

Mas depois da morte de Cristo, antes da sua ressurreição, muitos dos seus seguidores se sentiam desanimados, abatidos, porque sentiam a falta da presença física de Jesus Cristo. Os discípulos de Emaús se sentiam pior, de certa forma “enganados” por Deus, tanto que dizem “Nós pensamos que ele fosse o Messias, mas…”

Penso que nós podemos sentir algo parecido que sentiam os discípulos de Jesus, com relação ao Marcelo Câmara. Também sentimos a sua falta. E é normal que estejamos abatidos e entristecidos com a sua ausência.

Mas não podemos nunca sentirmo-nos enganados, pois assim como Cristo está vivo, o Marcelo está presente entre nós.

E o Marcelo ao colocar-se ao nosso lado no caminho da nossa vida, como Cristo se colocou ao lado dos discípulos de Emaús, nos confirmou na fé, fez o nosso coração arder no caminho da nossa vida, encheu-nos de esperança de levarmos uma vida próximos a Deus. Encheu a nossa vida de alegria e entusiasmo, como fez Jesus com os discípulos de Emaús.

 

Mas o evangelho diz que, quando o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles, eles não o reconheceram.

Talvez alguns de nós não tenhamos tido tempo e intimidade suficientes para conhecer bem o Marcelo, para saber quem estava ao nosso lado. Gostaria de fazê-los notar em parte a sua nobreza, a exemplaridade da sua vida. Eu que fui seu diretor espiritual nos últimos anos, posso afirmar que o Marcelo é uma das pessoas de alma mais fina e delicada que conheci.

São Josemaria – a quem O Marcelo tinha tanta devoção – dizia que cada cristão, deveria se identificar com Cristo, a ponto de ser outro Cristo, o próprio Cristo. A ponto de ser Cristo, que passa na vida dos demais.

O Marcelo foi uma pessoa que se identificou muito com nosso Senhor. Atrevo-me a dizer que quem o conheceu, também passou a conhecer um pouco mais a Jesus Cristo. Ficou mais fácil imaginar melhor como Jesus seria.

Também se poderia dizer do Marcelo, aquilo que se dizia de Jesus:

- Ele faz tudo bem feito. Todo trabalho que caía nas mãos do Marcelo era feito com grande perfeição humana e amor, e era oferecido a Deus como uma oração que subia ao céu.

- Jesus disse: “Quem quiser ser meu discípulo tome a sua Cruz de cada dia e siga-me”. O Marcelo abraçou a cruz da sua doença, dos seus sofrimentos, com total generosidade. E tomou a sua Cruz diária, com um sorriso constante, diário, por amor aos demais.

- O Marcelo poderia dizer o que Cristo dizia: Eu vim para servir, e não para ser servido.

Lembro-me quando passou no concurso do Ministério Público. O que mais lhe animava era a enorme possibilidade de fazer muito bem aos demais. Pensava na influência benéfica que poderia ter na sociedade.

Não se preocupava apenas com a justiça, ia mais longe, se preocupava com a caridade. Contaram-me que, quando na realização do seu trabalho um homem foi condenado à prisão por alguns anos, depois da sentença o Marcelo lhe foi consolar e dar-lhe bons conselhos.

- O Marcelo poderia dizer-nos – por humildade não diria – o que Cristo disse: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.

Penso que o Marcelo Câmara, nos seus 28 de vida, era uma das pessoas mais cultas e inteligentes que conheci até hoje. Chamava muito a atenção a linearidade do seu raciocínio, a clareza das suas exposições, o brilhantismo dos seus argumentos. Porém, mais impressionante ainda era a sua humildade ao ter tantos talentos. Era uma pessoa totalmente acessível e simples. Não se envaidecia pelas suas qualidades, ao contrário reconhecia que tudo era dom de Deus e os colocava a serviço dos demais.

Para não se distanciar dos outros fazia o esforço de falar de uma forma simples, e algumas vezes chegava a empregar algumas gírias, para que o seu belo português não criasse barreira para os demais, que não possuíam o mesmo vocabulário. Nunca pretendeu mostrar a erudição, que possuía.

- E como era manso! Seu (pai) Júlio nos contou algo muito bonito no dia do seu enterro: “Quando alguém poderia atuar mal, o Marcelo o advertia cheio de delicadeza e caridade, dizendo: isso não convém”.

Ultimamente quando estou para atuar não da melhor forma, parece que ouço também a repreensão carinhosa do Marcelinho: “isso não convém”. Quem sabe, se deixarmos que nos fale, o Marcelo também nos diga o mesmo: “Meu querido, isso não convém”.

- Tinha um coração aberto a todos. Contaram-me da moça com quem fez a inscrição para o concurso do ministério público, que ficou tão impressionada com a sua delicadeza e atenção, que acompanhou todas as etapas do seu concurso, torcendo para que ele passasse.

O Marcelo reconhecia o profundo valor, a dignidade de cada pessoa, por ser filha de Deus e uma pessoa amada por seu Pai Deus.

Por tudo isso e muito mais temos vontade de dizer ao Marcelo, o que os discípulos de Emaús disseram a Jesus: “Permanece conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!”

Permanece conosco Marcelo, queremos estar sempre contigo, queremos ter-te como amigo, queremos abrir-te nossa alma.  Já vai anoitecendo, e precisamos da luz de Deus que refletias nas nossas vidas.

Graças a Deus, muitos de nós teremos no Marcelo um referencial bem claro na vida. E no meio das confusões e bagunças da vida, poderemos nos lembrar dele e nos orientar e exclamar: “Eu comparo com o que vejo e percebo que aquilo que ele vivia era o melhor, que o Marcelo estava certo! Ele tinha razão! Aquela generosidade, aquela capacidade de se sacrificar pelos outros, aquela bondade, aquela fé!” O Marcelo não eram mais um. Sua vida era rica por dentro, era luz, era uma pessoa “luminosa”.

Basta pensarmos na pequena multidão de bons amigos que estiveram no seu enterro e que participam dessa Missa, sendo que por um bom tempo, nos últimos anos, esteve bem afastado da vida social devido aos contínuos tratamentos médicos.

 

Por que o Marcelo marcou tantou?

- Porque estava feliz, vivia feliz. E também feliz deu conta ao Criador da sua existência.

- O Marcelo tinha essa luz interior, que a irradiava, que nos tocava. Penso que todos que convivemos com ele podemos dizer: a convivência com ele me fez muito bem, carregarei por toda a vida as suas lições.

- O Marcelo era uma dessas pessoas de fé que se sentiam responsáveis por humanizar o mundo, por cristianizar o mundo, para que fosse menos materialista, menos sensual, menos egoísta e tivesse mais “alma”: paz, compreensão, caridade…

Eu não posso deixar de pensar na graça que Deus nos concedeu em conhecer uma pessoa muito especial: como nos iluminava com o seu exemplo de atenção, de carinho, de preocupação, de alegria e simplicidade.

Quando nós encontramos uma pessoa que tem as lutas que nós temos, que teve maiores sofrimentos que nós tivemos, que encontrou dificuldades muito maiores que as nossas e vemos que tinha uma alegria que não era circunstancial, temperamental, externa… Esse exemplo nos ilumina, nos atrai.

Possuía uma alegria profunda que às vezes pode ser compatível com uma dor dilacerante e com os sofrimentos.

Percebemos: há algo profundo em que se apóia. E nos perguntamos: “O que está acontecendo aqui?”, “Como o Marcelo não desaba?”,“Como consegue ver serenamente as coisas, mesmo que estas humanamente pareçam pretas, fechadas, escuras?” “Aqui tem algo!”

O Marcelo manifestava o que possuía no seu interior. Dizia sem palavras: “Eu luto, eu quero lutar, eu acredito em Deus e acredito nas pessoas, na mudança das pessoas para melhor. Eu sou otimista sempre, pois me apoio na minha fé”.

O Marcelo estava feliz, pois tinha a disposição de dar ao Senhor com alegria tudo o que Ele lhe pedisse. Isto é fé e amor.

Como bom filho de São Josemaria, no Opus Dei, poderia dizer dele tantas coisas que se dizia do Fundador do Opus Dei

- “De suas palavras emanava uma grande segurança, que as pessoas guardavam no seu íntimo. Na medida que a conversa avançava tantas pessoas se sentiam invadidas por uma maravilhosa paz e uma enorme serenidade que nem remotamente tinham procurado, mas que a tinham encontrado”.

- “todos que tivemos a sorte de aproximar-nos desse homem de Deus, sentimos invadidos de um carinho inesgotável. Pródigos de detalhes de ternura, delicadeza, bom-humor que deixavam na alma uma sensação de bem-estar espiritual e um estímulo de vida isenta de egoísmo e ansiosa de servir os outros”.

Que maravilha poder dizer isto de uma pessoa. É algo que se deveria poder dizer de todos nós os cristãos. Essa é a caridade cristã. É um exemplo que arrasta.

Que bom seria se pudéssemos ser como dizia S. Josemaría em uma de suas homilias:

“Que as nossas palavras sejam verdadeiras, claras, oportunas, que saibam consolar e ajudar. E sobretudo levar os outros a Deus. Que as nossas ações sejam coerentes, eficazes, que tenham o bom-humor de Cristo, por lembrarem o seu modo de comportar e de viver.”

 

Poderíamos dizer, como os discípulos de Emaús: “Não ardia o nosso coração quando o Marcelo nos falava pelo caminho?”

É muito animador ter convivido com o Marcelo, pois nos enchemos de esperança de que este nosso mundo pode ser melhor. Percebemos que é possível vivermos uma vida profundamente cristã no meio da sociedade, no meio do mundo; que é possível se guiar nessa vida pelas palavras e pela vida de Jesus Cristo; que a santidade está ao alcance de todos nós e também dos jovens.

Por isso dizemos mais uma vez: “Marcelo, nos acompanhe do céu”.

- Te pedimos: interceda por nós para seguirmos a Cristo como tu seguiste.

- Te perguntamos: O que cada um de nós podemos fazer na nossa vida para te dar uma alegria no céu? Para que possas sentir que tua presença em nossa vida não foi em vão?

- Que gostarias que mudássemos na nossa vida, para sermos também luz, outros Marcelos, ou melhor ainda, outros Cristos?

E tenho certeza que nos diz ao coração: “Eu estarei sempre te acompanhando na tua vida”.

Gostaria de voltar-me a dona Leatrice e agradecê-la por ter cuidado tão bem do nosso Marcelo.

Dona Leatrice me dizia que “não custava nada cuidar dele, pois para ele sempre estava tudo muito bom. Ele não reclamava de nada”. Mas assim mesmo queríamos agradecer à sua mãe pois além de filho da senhora ele é nosso amigo e companheiro de caminhada para Deus.

Temos a certeza que agora Nossa Senhora o cuidará dEle, como cuidou de Jesus Cristo.”