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Capítulo do livro Vem e Segue-me (Biografia do Monsenhor Francisco de Sales Bianchini) escrito por Marcelo Câmara.

Monsenhor de Sales Bianchini não esconde a admiração que nutre por um jovem chamado Marcelo Henrique Câmara. Católico de escol, é Marcelo um atestado vivo da presença divina em nosso meio. Tem lutado com denodo e galhardia contra uma grave doença, que está vencendo com a ajuda de Deus, de familiares, amigos e médicos dedicados. Tanto que, neste ano de 2008, está voltando a trabalhar no Ministério Público catarinense, onde é Promotor de Justiça.

Marcelo participa do grupo São Paulo, de jovens do Movimento de Emaús , orientado pelo casal Miguel Pelandré Perez e Nilcéia. É professor de Direito Civil no IES FASC. O jovem Bruno de Macedo Dias, bacharel em Direito que trabalha no tribunal de Justiça catarinense, disponibilizou ao autor deste livro (e lhe sou grato por isso), um contato com Marcelo. E este se dispôs a participar com muita alegria desta obra de reconhecimento ao ministério sacerdotal do Monsenhor, brindando os leitores com um testemunho ímpar, que a seguir transcrevo:

Algumas palavras sobre alguém que se fez querer e que conheci na aldeia de Emaús.

Sou obrigado a confessar que quando fui convidado a participar do curso de Emaús de 28 a 31 de agosto de 1997, não cuidei de observar os prazos das entrevistas prévias que selecionam os candidatos, e não tinha mesmo muita determinação em juntar-me a um grupo de garotos em um fim de semana em um morro do sul da ilha de Santa Catarina. Mas, na última hora para participar do retiro, fiquei constrangido em negar: fui entrevistado por telefone, o que doge em muito do usual. Sinceramente, fui “laçado” para o tal “Emaús”.

Na época, eu sequer sabia o que significava tal expressão: Emaús. Seria alguma sigla estranha?

Como se deu com Saulo, sem comparação, é claro, caí do cavalo em relação àqueles dias de recolhimento.

Isto se deve, fundamentalmente, às palavras que pude escutar em uma determinada manhã a respeito da pessoa de Jusus Cristo.

Aquele Homem, que era até então um estranho, revelava-se, de par em par, de minuto a minuto, como sentido da minha vida, fundamento da minha existência. Posso afirmar que me sentei na sala de palestras como um jovem avesso às missas, e levantei-me um adulto pela felicíssima maturidade que as palavras ouvidas, tão evidentemente verdadeiras, trouxeram ao meu ser, à minha pessoa.

Não parecia que eu estava vendo e ouvindo alguém que tinha lido os Evangelhos, mas alguém que tinha visto aquelas magníficas cenas, que com tanto amor e felicidade narrava, tendo o Cristo como referência essencial.

O Cristo como o santo alvo de uma narrativa apta a revelar, por parte do padre, um bem-querer que se mostrava eterno, sem fim.

Que trato delicado com a pessoa de Jesus tinha aquele padre!

Uma fineza de alma, que apresentava àqueles jovens, dentre eles eu, admirado, toda a delicadeza da alma de Cristo, das maneiras de Cristo, dos olhares de Cristo!

Tudo, à luz de Cristo, parecia tão diferente, mais belo, mais cordial, mais pleno de significado. Era tudo tão simples! Dali em diante bastava seguir Aquele que me dói anunciado. Nas quedas, Ele me acolheria; nos progressos, Ele aumentaria em mim a graça de sua Santa Presença, tanto espiritual como eucarística.

E esta mudança de vida, de perspectivas, de valores, se deu ao escutar a fala de um senhor já com certa idade, mas que se mostrava um instrumento fidelíssimo d’Aquele Jesus que me fazia apresentar. Que sacerdote genial! Em suas palavras, erudição, confiança profunda no que manifestava e um indiscutível amor a Jesus Cristo.

Um amor que soube transmitir a muitos. Tenho a grande alegria de ser um destes.

Fala-se do Monsenhor Francisco de Sales Bianchini, um homem apaixonado por Deus. E que serve como via pela qual Deus vem se fazer íntimo de tantas pessoas, especialmente de um sem-número de jovens que tiveram a providencial oportunidade de escutá-lo, por pouco tempo, naquele belo recanto da ilha que é o Morro das Pedras.

Diante dos erros, dos quais não fugimos ao longo da vida, o padre Bianchini, meio italiano , meio alemão, me ofereceu um caminho seguro de retorno, através do sacramento da volta, remédio para a recuperação da alegria de viver na amizade de Deus.

Diante das dificuldades de perseverar na vida cristã, hoje tão incompreendida por boa parte da sociedade, ensinou com praticidade e familiaridade os caminhos dos Evangelhos, que se tornaram habituais em minha vida.

Por sinal, ao falarmos das Santas Escrituras, é integralmente possível dizer que o padre Bianchini, como todos o chamam, encarnava o Evangelho ao falar d’Aquele que para mi era um emérito desconhecido: Jesus, filho do Deus vivo.

E com que brilho o padre me apresentava o Senhor! Com quanta intensidade expressava as falas de Cristo, que se tornavam tão próximas do coração dos jovens, abertos a um amor personalíssimo, mas até então desconsiderado.

As palavras do padre foram luz sobre a escuridão da ignorância, dissipando-a.

As palavras do padre tornam Jesus de “alguém na História”, em centro da vida não apenas minha, mas de milhares de jovens que o ouviram de alma desarmada.

Tive ainda uma grande graça, ao conhecer o padre naqueles dias.

Eu, muito sem respeitos humanos, ao descobrir que se administraria o Sacramento do Santo Crisma naqueles dias de retiro, tratei de me dirigir ao Padre Bianchini e dizer: Padre, você não gostaria de ser meu padrinho de Crisma?

Ele, com um sorriso no rosto e uma lágrima no olho, aceitou prontamente.

Procurei, desde lá, ser fiel ao significado do Crisma que recebi de meu próprio padrinho, seguindo na vida em Cristo, bem instruído que estava por trilhar um caminho com provas, dificuldades, mas também de uma felicidade garantida, já nesta terra, mais ainda na eternidade, em função do perdão que se colhe na confissão frequente, que aprendi do meu padrinho.

Daquele retiro em diante pude desfrutar, com os muitos amigos que ganhei no Emaús, da presença sempre amiga, sempre erudita e muito repleta de paternidade espiritual do padre Bianchini.

MENEZES, Roberto Rodrigues. Vem e segue-me Mt 9,9: Monsenhor Francisco de Sales Bianchini/ Roberto Rodrigues de Menezes. Florianópolis, 2008. 207 p.