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Conheci o Marcelinho no Grupo São Paulo, grupo de jovens do Movimento de Emaús, e desde então fomos estabelecendo uma relação de amizade. Não precisava de muito tempo próximo a ele para logo perceber que se tratava de uma pessoa especial. Era comum perceber o quanto as pessoas que conviviam com ele o admiravam tanto os mais novos quanto os mais velhos do que ele.
O Marcelinho era o conselheiro de vários amigos, e para os mais diversos assuntos. Era uma pessoa extremamente inteligente e culta. Senão me engano foi o mestre em direito mais novo do estado de Santa Catarina, acho que na época tinha 24 anos ou algo próximo disso. Amante dos estudos, habitualmente estava envolvido em algum curso, o último que tive conhecimento era da língua francesa. Era um amigo sempre disponível, amigo querido, que fazia questão de oferecer seus ouvidos, para quem dele precisasse.

Era a quem eu recorria com freqüência na certeza de que teria a palavra certa na hora certa, o acolhimento que só ele sabia dar. Nas festas da Irmandade do Divino Espírito Santo, era famoso o cachorro-quente oferecido na barraca do Grupo São Paulo. Brincávamos que era um cachorro-quente “bento” quando ofertado pelo Marcelinho, porque além de ser tocado por suas mãos abençoadas, vinha acompanhado de um maravilhoso “paz e bem” que ele mesmo proferia com todo o amor e devoção a esta fé em Cristo que o fazia se destacar em meio a tantos cristãos convictos.

Nas reuniões de grupo tínhamos muitos momentos de descontração, e todos procuravam saber mais da vida do Marcelinho, do dia a dia mesmo, e ele sempre bem humorado e com aquela humildade que lhe era nata relatava histórias principalmente da convivência com seu irmão, Murilo Eduardo, mais conhecido como “Murilinho” apesar de sua aparência em nada assemelhar ao sufixo “inho”. Essas histórias eram todas permeadas de muito amor e carinho.

A forma de ser e de estar no mundo do Marcelinho instigava saber se ele havia nascido assim. A quem diga que ele era um jovem “normal” como qualquer outro com a mesma idade, mas que a partir do retiro de Emaús foi convertido de tal forma que por onde passava ou falava chamava a atenção em razão de seu comportamento Santo de ser. Era educadíssimo. Nunca esqueço de uma ocasião onde a reunião do grupo foi na minha casa e minha mãe atendeu ao interfone dizendo: “Não entendi o nome, mas é uma pessoa muito educada”, todos os presentes se olharam e disseram ao mesmo tempo: “é o Marcelinho”.

Quando tive conhecimento de que ele estava doente, e que se tratava de uma doença grave, num primeiro momento não consegui compreender porque Deus não teria afastado dele este cálice, um ser humano tão especial, tão importante para disseminar a fé e o amor ao próximo aqui na terra, uma pessoa que transmitia paz simplesmente por sua presença num lugar, que quando falava conseguia calar a todos como se todos o quisessem ouvir cada vez mais e mais e não sentissem necessidade de interrompê-lo. Tudo nele era diferente, especial. A voz, o jeito de falar, de se portar, de ouvir. O simples gesto de ouvir era especial demais, ele ouvia com o coração, transmitia seu amor gratuitamente a quem dele recorreria. Enfim, gerou não só em mim, mas acredito que em muitos que o conheciam e que não tinham (ou não tem) a mesma fé que ele tinha, uma indignação e uma revolta sem tamanho. Como era possível??? A possibilidade de “perdê-lo” trazia medo, insegurança, sensação de abandono.

Logo no primeiro contato com ele após o descobrimento da doença, mais uma vez ele surpreendeu, quando deveria estar sendo acolhido e confortado era ele quem acolhia e confortava os seus. Ele dava lições de vida o tempo inteiro. Não que tivesse a intenção de fazê-lo, mas simplesmente porque ele vivia o amor, vivia a fé que evangelizava e confiava plenamente no caminho que Deus havia preparado para ele. Não que em muitos momentos não tivesse sentido medo ou tristeza, mas que mesmo sentido dor acreditava que o melhor estava por vir.

Nunca vou esquecer de uma ocasião em que estava comemorando meu aniversário na Pizzaria San Francesco (ponto de encontro do Grupo São Paulo) e que tinha consciência de que o Marcelinho não poderia ir em razão de neste mesmo dia ter realizado uma sessão de quimioterapia. E de repente vimos um taxi parando na entrada e o vi descendo de muletas…foi emocionante demais! E claro que fui logo ao seu encontro perguntando se estava tudo bem, dizendo que ele não precisava ter se incomodado em ir para a Pizzaria, que deveria estar descansando, quando ele de um modo muito peculiar e habitual, colocou seu dedo indicador na ponta do meu nariz e disse: “eu não poderia deixar de participar da comemoração do aniversário da minha amiga querida” (sic).

Outro momento que me recordo com emoção foi na ocasião do meu casamento em que ele se encontrava internado e que algumas horas antes da cerimônia me ligou justificando sua ausência e desejando toda a felicidade do mundo. Infelizmente pouco mais de um ano depois eu estava me separando, foi um dos momentos mais dolorosos e traumáticos da minha vida, e como não poderia deixar de ser, lá estava o Marcelinho me dando todo o apoio e me orientando quantos aos procedimentos para entrar com o processo de nulidade matrimonial. E era uma das minhas testemunhas no processo junto ao Tribunal Eclesiástico, processo este que tramitou juntamente com o processo de separação judicial no Civil. Foi um período de muito sofrimento, de muita angústia e de dificuldades em vários sentidos. O apoio da minha família e dos amigos foi fundamental para eu superar essa fase e nos momentos de maior sofrimento recorria ao Marcelinho que sempre tinha palavras para confortar a saúde da alma, da mente e do coração. Eu sempre dizia para ele que o fato de estar ao seu lado e/ou segurando sua mão já era o suficiente para se sentir em paz.

O Marcelinho sempre surpreendeu e não foi diferente com sua doença. Ainda que se tratasse de uma doença que só de ouvir o nome já causava temor nas pessoas, o Marcelinho não se deixou abater, procurou se informar sobre suas reais perspectivas de cura e os tratamentos mais adequados e lutou por sua vida. E em meio ao tratamento, que todos que tem conhecimento do assunto sabem dos fortes efeitos colaterais, permaneceu se dedicando ao que acreditava ser seu ofício. Estudou para prestar concurso para Promotor do Ministério Público em meio às internações, as transfusões de sangue, de plaquetas, do mal-estar ocasionado pelas quimio e radioterapias. E lutando contra as fortes dores que esse mal (doença) acomete, passou com louvor e logo tomou posse. Este foi um momento muito importante na vida dele e de muita felicidade. No período da posse, foi possível festejar e comemorar não só essa conquista, mas também a cura. Naquele momento, segundos o médicos, o Marcelinho podia considerar-se curado.

Contudo, o próprio Marcelinho já havia falado do forte tratamento de quimio que havia se submetido, uma vez que o tipo de câncer que teve tinha muitas chances de recidiva e, portanto como ele mesmo falava estava realizando uma quimio bastante agressiva para “não sobrar pedra sobre pedra” (sic).

Infelizmente alguns meses depois tivemos a fatídica notícia de que a doença havia retornado, agora em forma de leucemia. Foi um “baque” todo aquele sentimento de injustiça, de porque com ele, de indignação voltou! Não era justo ele passar por tanto sofrimento novamente. E mais uma vez pude constatar a santidade desse amigo tão querido. Liguei para o Marcelinho perguntando como ele estava se sentindo, e ele discorreu sobre a generosidade de Jesus. Lembro como se fosse hoje das palavras dele relatando o quanto Deus tinha sido generoso com ele, que aguardou ele ter estabilidade financeira (por conta do cargo de promotor) e estar amparado por planos de saúde para então ter a recidiva da doença, que havia procurado o melhor especialista de transplantes de medulas no Brasil, e que a clínica deste médico era em Curitiba, que iria fazer o auto-transplante de medula, método pioneiro e revolucionário da medicina. Na ocasião verbalizou com otimismo suas conquistas, seu processo de tratamento, e seu testemunho de fé.

Esta luta exigiu mais do Marcelinho…e ele próprio sentiu isso e numa reunião do grupo verbalizou sobre a importância de sabermos ouvir a Deus e de confiarmos no caminho que ele preparou para cada um de nós. Pouco tempo depois o Marcelinho nos deixou…era dia 20 de março de 2008. Eu senti muita dor e muito remorso porque como estava envolvida ainda com meu processo de separação, fiquei muitas vezes de ir na casa dele para fazer uma visita tendo a certeza de que por acreditar que ele era santo que Deus jamais o levaria tão cedo e que acabei perdendo tempo demais e não consegui me despedir desse amigo tão especial. Isso me corroeu a alma, senti uma dor imensa, muita tristeza e muita indignação. Minha fé ficou abalada com esta perda. Não conseguia me conformar. Pensei que se o Marcelinho, que para mim era santo em vida e ouso afirmar que foi o ser humano que tinha o comportamento mais semelhante ao que Jesus Cristo pregou no evangelho, tinha passado por tudo aquilo, então de que valia ser assim…

Levei muito tempo para entender que Deus também precisa de pessoas especiais ao seu lado. E compreendi que o lugar do Marcelinho era lá mesmo, no lugar mais especial que existe, que é ao lado de Deus.

Enfim…meu processo de separação foi litigioso e já se arrastava por alguns meses sem qualquer perspectiva de definição, meu ex-marido não aceitava qualquer acordo que eu tentasse propor, até que estava chegando o dia da audiência e eu não me sentia preparada para vê-lo. Pedi a intercessão do Marcelinho com toda devoção e carinho que eu já tinha por ele em vida, pedi para que eu não precisasse vê-lo novamente, que as coisas se definissem, que isso tudo tivesse logo um fim. E para minha surpresa dois dias antes da audiência meu advogado me liga dizendo que meu ex-marido tinha aceitado o acordo e que eu não precisaria comparecer na audiência, que ele próprio levaria o documento assinado, que a separação se transformaria em consensual. Neste momento eu tive a certeza de que meu amigo lá de cima agiu em minha causa…usou seus instrumentais jurídicos. Tive um momento de comoção, chorei muito, era muita emoção, mas neste momento recordo meu choro de felicidade foi mais em razão de acreditar que mais uma vez pude contar com o Marcelinho do que com o fato da separação em si ter sido consumada. Agradeci muito este acontecimento. Coincidência ou não vai fazer 7 anos que me separei e NUNCA mais vi meu ex-marido.Estou casada há 3 anos e tenho um filho lindo de 1 ano e 6 meses fruto de muito amor!

Foi com muita alegria que no final do ano de 2013 alcancei outra graça maravilhosa e com toda a certeza pela intercessão do meu amigo querido. Saiu a decisão do Tribunal Eclesiástico e nas duas instâncias meu casamento foi considerado nulo, foram quase 7 anos de espera mas agora me encontro livre para contrair o matrimonio. Estou muito feliz por isto.  O Marcelinho seria uma das minhas testemunhas, mas em razão da morosidade do processo e da sua ida precoce para o céu, testemunhou por mim lá de cima…

Não tenho dúvidas de que ele fez, e muito bem, o seu trabalho jurídico de lá. Geralmente recorro ao Marcelinho para pedir serenidade nas minhas ações, saúde para minha família e perseverança na fé. Pra mim o Marcelinho foi santo em vida e, portanto permanece sendo. Mas ao contrário do habitual, penso que o dia em que ele deve ser homenageado é o dia de seu nascimento e não de sua morte. Dia 28/06 é o dia do aniversário dele, um belo dia para comemorar o dia do Santo Marcelinho!

Thaiz Borges Martins Vieceli